Teria Trump se tornado irracional? Interpretação possível, mas exagerada
Até Donald Trump reconheceu que foi errado divulgar a imagem em que aparece claramente como um Jesus Cristo patriótico e apagou a postagem. Mas não deu para apagar as interpretações, até entre aliados, de que a imagem com ares de blasfêmia indica uma tendência à irracionalidade.
Ou, no mínimo, a perda dos mecanismos de filtragem. Isso não é incomum entre os poderosos, cercados de bajuladores que não ousam dizer não e empolgados pelos votos que os levaram ao ápice, esquecendo-se de que voto não é uma garantia eterna de fidelidade. Chegam a achar até que degustar um animal silvestre vai fazer bem para sua imagem. É a embriaguez do poder.
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Comprar briga com o papa é outro indício de que Trump anda flertando com ultrapassar as fronteiras da irracionalidade. Não que Leão XIV não tenha se deixado levar por uma óbvia antipatia pelo presidente, mas acusá-lo de ser “fraco com o crime e péssimo para a política externa” é uma tolice: ele é papa, tem que ser forte contra o pecado e bom para a alma dos fiéis. Trump bateu o pé e repetiu as reclamações, condenadas até por uma de suas personalidades prediletas na política internacional, a católica praticante Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália.
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As imprecações contra o compatriota também abriram caminho para o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, tentar tirar uma casquinha e mandar uma mensagem ao papa: “Condeno o insulto a Vossa Excelência em nome da grande nação do Irã e declaro que a profanação de Jesus, o profeta da paz e da fraternidade, não é aceitável”. Vejam só.
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TOMAHAWK NO PÉ
Estaria Trump perdendo seus instintos políticos, a arma com a qual criou um poderoso elo com a enorme parcela do eleitorado americano que o presenteou com a Casa Branca duas vezes? Ou estaria apenas curtindo o que mais gosta, ocupar o centro das atenções – com eficiência, pois não se falou nos últimos dias de outro assunto.
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Insultar os cristãos, mesmo que não de maneira maligna, seria um Tomahawk no pé, alcançando igualmente católicos (70 milhões) e protestantes (150 milhões, dos quais 80 milhões evangélicos). Sem contar o insulto às inteligências mesmo abaixo da média ao dizer: “Achei que era eu como médico. Tinha a ver com uma cruz vermelha”.
Embora não pareça minimamente sob pressão, Trump não pode estar nada satisfeito com a situação que criou no Irã: o regime não caiu, as negociações sobre um acordo de longo prazo fracassaram rapidamente no Paquistão e a vasta maioria dos países aliados dos Estados Unidos se manifestou contra a guerra ou ficou em silêncio.
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Vários analistas acham que Trump usa deliberadamente a imagem de “louco de pedra” para manter os inimigos numa posição de desconforto e dúvida sobre seus próximos lances. A reunião com os principais assessores de segurança que precedeu a decisão sobre o ataque ao Irã, reproduzida em detalhes pelo New York Times, mostrou um presidente coerente, lúcido, interessado em ouvir todos os argumentos, contra e a favor, e que acaba decidindo a favor da guerra.
MENSAGEM DE PERDÃO
Inimigos mais figadais enxergam em seu comportamento traços de desequilíbrio e falam até em invocar a 25ª emenda da Constituição, dedicada à declaração de impedimento do presidente por doença grave, física ou mental. O New York Times, claro, já achou especialistas para corroborar a tese. É o exagero que intoxica a política, desiludindo os cidadãos comuns que se sentem expelidos por atitudes extremas.
Um teste grande para o equilíbrio presidencial está em vigor desde ontem, com a decisão do “contrabloqueio” do Estreito de Ormuz. Como reagirão os navios iranianos proibidos de sair de seus próprios portos? E o petróleo, a bolsa e outras instâncias avessas à instabilidade?
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As negociações com o Irã no Paquistão não foram o fracasso total apresentado pela mídia e ainda existe campo para um acordo, com o Irã suspendendo a produção de urânio por alguns anos (quantos ainda é objeto de grande concordância), em troca de um chamado “pacote Tiffany”: suspensão de sanções e outras vantagens econômicas.
Os próximos dias prometem emoções fortíssimas. Mas pelo menos é razoável prever que não veremos mais Trump querendo encarnar veneradas e divinas figuras.
Pelo menos, a favor de Trump, pesa que o insulto foi a um mensageiro que tem o perdão como um dos pilares fundamentais de sua doutrina. Já pensaram se fossem outros os envolvidos?
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