'Treta' deixa de ser filé e vira um bom Burger King em segunda temporada
Há três anos, "Treta" irrompeu como um tornado de criatividade autoral em um mar de séries regidas pela padronização dos algoritmos da Netflix. Aquele tipo de produção que acerta um nervo e chega a um sucesso antes imprevisível.Então novato na função de showrunner, Lee Sung Jin conseguiu moldar algo novo na televisão a partir das tensões muito particulares da identidade asiática-americana, em uma trama disparada por dois desconhecidos que se despertam de um marasmo depressivo a partir do ódio visceral um pelo outro —calcado em excelentes performances dos protagonistas Steven Yeun e Ali Wong.A segunda temporada agora sobe de patamar em termos de orçamento e poder de fogo —afinal, acumulou cacife com os oito Emmys vencidos pelos episódios inaugurais. Mas acabou ganhando, também, banalidade.Centrada em uma dupla de casais em crise, interpretados por duas estrelas do primeiro time, Oscar Isaac e Carey Mulligan, e dois jovens em ascensão, o Charles Melton de "Segredos de um Escândalo" e a Cailee Spaeny de "Priscilla", a série parece se diluir no caldeirão insípido das produções de estúdio mais tradicionais.Em especial nos primeiros episódios, você pode ter a impressão de estar vendo uma outra antologia da concorrência, "The White Lotus", pela locação num clube de luxo com pontas de gente famosíssima, pelas tramas centradas em mutretas corporativas e pela miríade de problemas existenciais de gente branca e rica —parcela minoritária na "Treta" de 2023.A rivalidade obsessiva, mote propulsor da temporada original, se dissolve até quase perder importância diante das angústias de casais engolidos pela estafa da rotina e das frustrações acumuladas —pessoas que se voltam uma contra a outra com armas que, na verdade, estão apontando para si mesmas.
Afinal, a única coisa que parece unir a primeira e a segunda temporada é o interesse por grandes arranca-rabos. No primeiro episódio, a personagem de Mulligan, ao ouvir que o casal m...





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