O efeito surpreendente da cocaína em salmões, segundo novo estudo
Os salmões nadam distâncias mais longas sob o efeito da cocaína, que, assim como outras substâncias, pode chegar aos rios através do esgoto, revela um estudo publicado na revista Current Biology nesta segunda, 20. A pesquisa conjunta de cientistas da Universidade Griffith, na Austrália, e da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas é a primeira a analisar como a droga afeta o movimento de peixes selvagens em seus habitats naturais, e não em ambientes controlados de laboratório.
Os pesquisadores capturaram 105 salmões selvagens do Atlântico no lago Vättern, na Suécia, e administraram cocaína e benzoilecgonina, (principal metabólito da cocaína gerado pela droga no fígado, e comumemente encontrado em água poluída) e depois rastrearam seus movimentos.
Os animais foram separados em três grupos de tratamento: um grupo controle, um grupo exposto à cocaína e outro grupo exposto à benzoilecgonina.
Eles determinaram que os peixes percorreram em uma semana uma distância 1,9 vez maior sob o efeito da benzoilecgonina do que aqueles não expostos à substância. Os peixes que tiveram contato com o derivado também viajaram até 12,3 quilômetros mais longe, revela o estudo.
O co-autor do artigo, Marcus Michelangeli pontua a importância das descobertas para compreender a interação dos peixes com o ambiente.
“Onde os peixes vão determina o que eles comem, o que os come e como as populações são estruturadas”, afirmou. “Se a poluição altera esses padrões, isso tem o potencial de afetar os ecossistemas de maneiras que estamos apenas começando a entender.”
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Poluição aquática
A cocaína e seus metabólitos têm sido cada vez mais detectados em rios e lagos ao redor do mundo, entrando principalmente nos cursos d’água por meio de sistemas de esgoto que não foram projetados para remover completamente esses compostos.
O estudo fornece as primeiras evidências do impacto dessa poluição no habitat natural dos animais, onde enfrentam condições mais complexas do que o ambiente controlado de laboratório.
“Estamos encontrando em nossos rios concentrações cada vez maiores não apenas de drogas ilícitas, mas de todo tipo de produtos farmacêuticos”, afirmou Michelangeli ao canal australiano ABC.
O uso de cocaína aumentou em todo o mundo. A ONU informou que quase 25 milhões de pessoas usaram a droga em 2023. A substância é encontrada com frequência em cursos de água.
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Cientistas temem que a contaminação das águas com drogas comuns represente “um risco grande e crescente para a biodiversidade”.
Contaminação dos peixes
Os pesquisadores descobriram que a benzoilecgonina, o metabólito da cocaína, teve um efeito mais forte no movimento dos peixes do que a própria cocaína.
A descoberta é importante para futuras abordagens de pesquisa, pois, atualmente as avaliações de risco se concentram no estudo do impacto do composto original da cocaína.
Segundo os pesquisadores, os resultados não indicam riscos para as pessoas que consomem os peixes, que também são menores do que o tamanho permitido para pesca. O nível de exposição reflete aquele já encontrado em águas poluídas em que o composto se degrada com o tempo.
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“A parte incomum não é o experimento, é o que já está acontecendo em nossos cursos d’água”, afirma Michelangeli.
Pesquisas futuras buscarão determinar o quão disseminados são esses efeitos, identificar quais espécies estão mais em risco e testar se as mudanças nos padrões de movimento se traduzem em alterações na sobrevivência e na reprodução.
Para o professor Michael Bertram, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, o estudo evidencia a necessidade de melhorar o tratamento e o monitoramento do esgoto.
“Nosso estudo indica que as drogas não são apenas uma questão social, mas também um desafio ambiental”, acrescentou.
(Com AFP)
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