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Cuiabá,28/04/2026

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Advogada acusa ex-parceiro PM de tentativa de estupro e década de violência

cnnbrasil.com.br
Advogada acusa ex-parceiro PM de tentativa de estupro e década de violência

Uma advogada acusa o ex-companheiro, um capitão da PMESP (Polícia Militar do Estado de São Paulo), de tentar estuprá-la e de manter com ela um relacionamento marcado por quase 10 anos de violência física e psicológica que atingiram até o filho pequeno do casal.


A mulher de 33 anos, moradora de São Caetano do Sul, no ABC Paulista, relatou à CNN Brasil histórias de violência doméstica com agressões verbais e físicas que se estenderam inclusive ao filho, enquanto ele ainda era um bebê, e culminaram no episódio de tentativa de estupro ocorrido em 28 julho de 2024.


Após anos de sofrimento, a mulher decidiu procurar a imprensa para relatar o caso, mas pediu para ter sua identidade preservada. A advogada esteve em um relacionamento com o capitão da PM Rafael Serpa Boni, de setembro de 2014 até meados de 2020.


A defesa do PM Rafael nega as acusações e afirma que a mulher busca “apenas criminalizar os desgastes de um divórcio litigioso”.


Década de violência


Entre setembro de 2014 até meados de 2020, a advogada e o PM Rafael moraram juntos pela maior parte do tempo. Após se separarem por cerca de dois anos, eles reataram o relacionamento em 2022, ficando juntos por alguns meses e então se separaram definitivamente em fevereiro de 2023.


Durante este período, a mulher conta ter perdido duas gestações, sendo uma de gêmeos em 2021. Ela atribui a perda ao estresse sofrido na época em que esteve com o ex-parceiro. Como consequência, desenvolveu depressão grave persistente e refratária, diagnosticada por psiquiatra, e que resultou em quatro tentativas de tirar a própria vida no início de 2022.


Após o caso de tentativa de estupro, a advogada decidiu não procurar a Polícia Civil em um primeiro momento pois buscava preservar o relacionamento do pai com o filho. Ela ingressou com uma denúncia na Polícia Militar para uma apuração interna, pedindo que Rafael assumisse o feito.


Uma sindicância chegou a ser instaurada pela PMESP, mas foi arquivada pela falta de evidências para corroborar o relato da vítima. Após isso, ela decidiu procurar também a Polícia Civil e registrou um boletim de ocorrência, que resultou na abertura de um inquérito policial que segue sob investigação na Polícia Civil. 


A advogada compartilhou com a reportagem um áudio de uma conversa com Rafael, dois dias após o episódio, em que diversas vezes ele admite e pede desculpas pelas agressões. Na ocasião, ele ainda tentou equiparar a tentativa de estupro com um episódio em que a mulher teria ficado com um colega da PM, enquanto eles estavam separados.


“Eu to me sentindo humilhado pelo desrespeito que eu te causei. Me desculpa, eu sei que é indefensável o que eu fiz“, afirma o policial em um trecho da conversa.


Apesar de possuir uma medida protetiva contra Rafael, a advogada precisa lidar com crises de ansiedade e TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), além do cuidado com o filho, que atualmente tem 10 anos. “Estou no auge do desespero. Há anos vivo um inferno”, relata a mulher.


Episódios de violência


A advogada conta que os abusos começaram em 2016, meses após o nascimento do filho do casal, com agressões verbais que causaram grande transtorno psicológico. “Ele me xingava de burra e dizia que eu marcava cafés com coronéis para ter relações sexuais e conseguir clientes“.


Ela conta de um episódio em que Rafael teria agredido o filho, enquanto ele tinha apenas um ano e meio de idade. “Ainda quando nosso filho era um bebê, estávamos em casa e ele fez cocô na fralda. Minutos depois, eu só ouvi um grito do meu filho e fui olhar. Vi a mão do Rafael levantada e uma marca vermelha no meu filho com o desenho da mão“, lembrou.


Em outubro de 2021, a advogada passou por um perda gestacional de gêmeos. No episódio, ela teve uma severa hemorragia interna, perdeu a trompa esquerda e uma parte de um ovário na cirurgia para retirar os bebês. “Tenho certeza que perdi os bebês pelo estresse, pelo abuso… tudo isso acabou afetando”.


Ela detalha que não se sentia mentalmente bem desde 2019. Mesmo antes da perda, mas principalmente depois, relatou que sofria abusos psicológicos constantes de Rafael. “Ele dizia que eu era uma péssima mãe, uma péssima esposa, que eu só dava problemas para a família… e eu saía de casa pensando que eles ficariam melhores sem mim”.


Entre janeiro e o início de fevereiro de 2022, a advogada tentou tirar a própria vida quatro vezes. Ela afirma que todas foram motivadas por discussões dentro do relacionamento tóxico com o ex-parceiro, e explica que a depressão que trata hoje não passa e já tem uma grande dificuldade de responder à medicação. 


“Entrei com processo para ter acesso a um remédio que custa R$ 80 mil por mês, mas a Justiça marcou a perícia para novembro. Tenho que fazer o possível para acordar e não só sobreviver, tenho meu filho para cuidar“.


A mulher obteve as primeiras medidas protetivas de urgência contra Rafael em março de 2022, após relatar um caso de violência doméstica. Em uma discussão que teria sido iniciada por ciúmes, o policial teria a segurado pelo braço, levado ela até o quarto do filho e a empurrado, fazendo com que ela batesse a cabeça na moldura da janela. Na época, ele confirmou a discussão, mas negou a agressão.


Tentativa de estupro


A mulher relatou à CNN Brasil o episódio de tentativa de estupro que sofreu do ex-companheiro. Ela acusa Rafael de cometer as agressões por volta das 20h no dia 28 de julho de 2024, no prédio em que a mãe dela morava no bairro Santa Maria, em São Caetano do Sul. Na época do caso, o policial era lotado no 30° BPMM (Comarca de Mauá).


Ela conta que Rafael foi ao prédio para buscar o filho. Segundo ela, ele chegou no local bêbado, com cheiro forte de álcool, já agarrando a advogada e tentando beijá-la a força na frente do menino. Ao questioná-lo, he disse que havia passado o dia com amigos policiais militares e que eles tinham ingerido bebida alcoólica.


A advogada afirma que tentou se desvencilhar do ex-parceiro, mas ele a jogou na parede e começou a retirar as roupas dela. A mulher afirma que pediu diversas vezes para ele parar, mas o policial seguiu com a agressão.


No áudio enviado à reportagem, que reproduz uma conversa entre o casal dois dias após o episódio, ele admite as agressões.




Veja alguns trechos abaixo:



  • Vítima: “Eu não tenho forças para fazer o que eu deveria fazer. Se eu prejudicar você eu prejudico ele (filho). O nosso filho sabe o que aconteceu… Eu não conseguia raciocinar o que tinha acontecido. Eu travei. Eu sei que quando a gente ta alcoolizado a gente faz algumas coisas sem noção. Mas aquilo eu não esperava. Eu não sei o que aconteceu com você. O pior é que começou na frente do nosso filho.”

  • Rafael: “Perdi a mão a hora que te encontrei. É uma mistura de vergonha com autodecepção… não devia ter feito o que eu fiz. Foi uma coisa impulsiva, eu não lembro de detalhes…”

  • Vítima: “Você me agarrou, tentou abaixar minha calça, me jogou numa parede do lado, voce segurou minha mão e me jogou na outra parede, subiu minha camiseta e me mordeu. Você abaixou de novo minha calça e falou que transou com outra mulher… tinha gente passando do outro lado da rua. Eu falei pra você, ‘para Rafa, para Rafa, para Rafa’… e você só falava ‘eu quero gozar'”

  • Rafael: “Absurdo, eu não tava raciocinando. Nem sabia que dava pra ver as câmeras do condomínio. Eu to me sentindo humilhado pelo desrespeito que eu te causei. Me desculpa, eu sei que é indefensável o que eu fiz.”

  • Vítima: “Eu to tentando ainda entender. Eu imagino que você saiba o quão grave foi o que você fez, a ponto de você poder ser demitido (Rafael responde: “eu sei”). E eu não vou fazer nada, não é por mim, é pelo nosso filho.”


Em um segundo momento da conversa, Rafael tentou equiparar a acusação de tentativa de estupro com um episódio em que a mulher teriado se relacionado com outro homem, enquanto o casal estava separado. Ele afirmou à ela que não sabia dizer se as situações eram diferentes.



  • Vítima: “Eu concordo que te magoei, mesmo estando separados, mas eu não consigo colocar as duas coisas na mesma medida…”

  • Rafael: “Você acha que você fez menos? Ou que eu fiz mais?”

  • Vítima: “O que você fez foi uma tentativa de estupro. Eu fiquei com uma pessoa. Se coloca no meu lugar, tenta inverter os papéis.”

  • Rafael: “Não sei se são distantes, distintas. Você sempre vai achar que você me magoou menos. Você acha que você me feriu menos, você sempre vai achar que feriu menos. E essa é a questão, você não consegue ver o lado do outro.”

  • Vítima: “Eu sinceramente estou perdida. Eu to tentando não pensar, tentando fazer várias coisas. É devastador. É óbvio que você nunca vai passar por isso. Isso quebra um pedaço da alma da gente.”

  • Rafael: “Tá vendo? Essa é a questão. Meu sentimento é sempre menor.”


A mulher também conta que, de acordo com o que ouviu do próprio filho, após a tentativa de estupro Rafael dirigiu supostamente embriagado, em alta velocidade, ultrapassando semáforos vermelhos, com o menino no banco da frente do carro e xingando pessoas que caminhavam na rua.


Após o episódio, a criança começou a tomar remédios antidepressivos.


Denúncia e investigação


A mulher reforçou que, na época em que sofreu as agressões, decidiu não acusar criminalmente Rafael para preservar a relação do policial com o filho de 10 anos do casal. Mesmo assim, ela ingressou com uma denúncia na Polícia Militar para uma apuração interna da corporação.


A PM abriu uma sindicância interna em 20 de agosto de 2024 para investigar a conduta do militar. Dentro da apuração foi descoberto que ele havia sido diagnosticado com Transtorno Explosivo Intermitente, em 2019. Segundo a Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria, a condição é descrita como uma “desordem mental caracterizada por episódios graves e isolados de agressividade de forma desproporcional, precedidos por um fator estressante e sucedidos por intenso arrependimento”.


Em 2 de dezembro de 2024, o procedimento foi arquivado. A Polícia Militar concluiu que não foi possível avaliar com “exatidão e veracidade” os fatos narrados pela advogada, devido à baixa qualidade de câmeras de segurança e inexistência de laudo pericial realizado na vítima.


Sobre a responsabilidade penal, a PM determinou o acompanhamento do desdobramento do caso na Justiça para avaliar “eventual resquício administrativo” contra Rafael. Ainda em outubro do mesmo ano, a Polícia Civil abriu um inquérito para investigar o crime de estupro.


Em nota oficial, o advogado que representa a vítima explicou o momento atual das acusações feitas nas polícias Civil e Militar. Leia abaixo:


“Não há ainda decisão final de mérito em ambiente criminal e, neste sentido, creio que caiba prioritariamente ao MP, como titular da eventual e futura ação penal, tomar as providências necessárias ao regular deslinde da situação, a partir do quadro fático que foi relatado pela Larissa, ocasião em que se poderá analisar e fazer um juízo de valor mais apropriado acerca das condutas praticadas pelo referido policial.


A mesma lógica se aplica, segundo acredito, ao ambiente disciplinar-militar que, embora até agora não tenha havido qualquer resvalo, poderá (re)abrir procedimento com vistas a aferir – do ponto de vista da Administração Militar – os possíveis ilícitos praticados. Permaneceremos certamente atentos, na lógica do devido processo legal e sem prejuízo ao amplo direito de defesa e contraditório, aos desdobramentos também neste campo, para além da esfera penal”. 


Outro lado


Em nota, a defesa do PM Rafael negou as acusações e afirmou que o áudio gravado pela mulher foi editado. Leia na íntegra:


“A defesa do Capitão Rafael Serpa Boni repudia as acusações, que não encontram qualquer respaldo na realidade e buscam apenas criminalizar os desgastes de um divórcio litigioso. A própria Polícia Militar já apurou e arquivou a denúncia em 2024, por absoluta falta de provas. O áudio enviado à emissora foi editado e retirado de seu contexto original, refletindo um momento de desgaste diante de sucessivas chantagens envolvendo a guarda do filho do casal — cuja audiência ocorrerá nos próximos dias. O Capitão Rafael confia plenamente na Justiça, respeita o sigilo do processo e comprovará a verdade nos autos, que é o único fórum adequado para a resolução deste conflito familiar”. 


Já a SSP (Secretaria de Segurança Pública), responsável pelas polícias do estado de São Paulo, informou que a acusação de tentativa de estupro contra o PM está sob investigação e que, até o momento, não foram localizadas denúncias na Corregedoria da Polícia Militar. Veja:


“A Secretaria da Segurança Pública informa que o caso citado é investigado por meio de inquérito policial instaurado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São Caetano do Sul, que realiza diligências para o completo esclarecimento dos fatos. Paralelamente, a ocorrência também é apurada pela Polícia Militar, por meio do CPA/M-6. A Corregedoria da PM informa que, até o momento, não foram localizadas denúncias ou reclamações relacionadas ao caso”. 




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