Melania está magoada e é compreensível, mas melhor não calar humorista
Vista retrospectivamente, a piada do apresentador Jimmy Kimmel com Melania Trump parece um presságio que por muito pouco não se realizou. Parodiando o jantar de gala com os jornalistas da Casa Branca, ele fez a provocação: “Nossa primeira-dama está aqui. Olhem para Melania, tão bonita. Senhora Trump, a senhora tem o brilho de uma futura viúva”. Dois dias depois, a mulher de Donald Trump estava no chão, por ordem de agentes do Serviço Secreto, para evitar o que depois se descobriu ser um atentado frustrado. Enfrentou o apuro com dignidade, embora não deva ter sido fácil se agachar com o elegante e longo vestido negro estilo smoking da grife Dolce & Gabbana.
É claro que isso a deixou mais sensível – da mesma forma que as centenas de jornalistas e celebridades, colocadas pela primeira vez na posição de alvo. Depoimentos emocionados de jornalistas presentes mostraram que virar notícia é uma experiência excepcional.
Mas teria Melania Trump razão ao entrar em contato com o canal de televisão ABC para dizer que “pessoas como Kimmel não deveriam ter a oportunidade de entrar em nossas casas todas as noites para disseminar o ódio”?
“Seu monólogo sobre minha família não é humorismo – suas palavras são corrosivas e aprofundam a doença política na América”, disse ela.
LICENÇA PARA OFENDER
Quando o sinal é invertido, e principalmente quando o marido de Melania dispara palavras ásperas e agressivas, a oposição concorda com Melania. Quando é alguém com quem se identifica, como Kimmel, ficam todos defendendo a liberdade de expressão.
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Humoristas realmente têm “licença para ofender”- e até fazer piadas de humor negro como invocar uma futura viuvez de Melania (Kimmel repetiu a piada ontem, dizendo que era uma referência à diferença de idade do casal). É ofensivo, de mau gosto e até violento. Mas é também uma parte do preço que se paga pela intocabilidade da liberdade de expressão. Figuras públicas – apesar da ambiguidade da posição das primeiras-damas – também precisam aceitar uma exposição maior a críticas e piadas.
Kimmel já foi suspenso por uma semana não por piadas pesadas, mas por uma afirmação mentirosa: a de que o assassino de Charlie Kirk fazia parte da “turma MAGA”- exatamente o oposto da realidade.
Para ele, é lucro. O limitadíssimo formato do programa que faz – abertura com um monólogo cheio de piadas e depois entrevistas com todas as brincadeiras previamente combinadas – está desgastado e vários nome famosos já foram dispensados. Quando o país inteiro esta comentando seu nome, é bom para Kimmel.
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Comparados aos loucos da internet, um espaço onde todos os absurdos são possíveis, os humoristas de televisão aberta são até contidos. Mas fazem parte do mesmo movimento, presente em muitos outros países, de exacerbação dos ânimos políticos a níveis, como disse Melania, doentios. Desejar a morte – ou obliteração ou danação eterna – do adversário virou uma banalidade.
PERDA DE FILTROS
A própria linguagem do homem que tentou invadir o jantar de gala onde estavam Trump e toda a elite da república mostra isso. No “manifesto” que enviou à família, Cole Tomas Allen chama Trump de “pedófilo, estuprador e traidor”- termos comuns no debate político.
Um fenômeno indicador da perda de filtros – e do aumento do poder dos influenciadores que dizem qualquer coisa para aparecer – é a enorme quantidade de postagens com a palavra “armação”, expressando a convicção de que o atentado frustrado de Allen foi montado para melhorar a avaliação de Trump. Uma insanidade, mas com muita gente disposta a acreditar nela.
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Curiosamente, Trump realmente mostrou que se sai bem sob pressão máxima. Não se apavorou com os tiros e manteve a cabeça fria nas conversas de bastidores quando muitos ainda estavam literalmente tremendo. Queria retomar o jantar, mas acatou as recomendações do Serviço Secreto de voltar para a Casa Branca, onde deu uma entrevista equilibrada num clima surreal, com ele, integrantes de seu gabinete, a própria Melania e a maioria dos jornalistas ainda trajando smokings ou vestidos de festa. Por alguns momentos, até jornalistas que normalmente espinafram Trump expressaram um sentimento de unidade e até de agradecimento pelos agentes de diferentes órgãos que os protegeram.
Obviamente, durou pouco. A violência verbal, que às vezes se transpõe para a vida real, infelizmente virou uma atitude corriqueira.
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