Uma dor sem lugar: por que os casos de autolesão em jovens dispararam
Os números chegam a assustar: entre 2011 e 2022, os casos de autolesão entre jovens de 10 a 24 anos cresceram 29% ao ano no Brasil, segundo dados da Fiocruz. E o suicídio entre adolescentes de 15 a 19 anos cresceu 49% entre 2016 e 2021, de acordo com o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. Por trás das estatísticas, há adolescentes que encontraram no próprio corpo o único lugar onde o sofrimento psíquico pode ser inscrito, quando nenhuma outra linguagem parece possível.
O adolescente já enfrenta uma travessia naturalmente turbulenta. Precisa ressignificar o próprio corpo, separar-se dos pais, construir uma identidade e fazer escolhas diante de um desejo que ainda não sabe nomear.
Esse processo, nunca simples, acontece hoje dentro de uma equação que o torna ainda mais árduo. A família, primeiro laço simbólico, encontra-se fragilizada, com pais sempre ocupados e distantes dos filhos, com dificuldade de sustentar a função de baliza referencial para o que irrompe na puberdade. No lugar da transmissão geracional, paira o silêncio. Há adolescentes que moram com os pais e se comunicam com eles por mensagem de texto dentro da mesma casa.
A hiperconectividade guiada por algoritmos aprofunda o isolamento e dificulta o laço com o mundo presencial. O adolescente sofre imerso em redes sociais que performam felicidade e frequentemente sente que sua dor não tem lugar.
O Instagram entrega diariamente imagens de perfeição irreal a sujeitos em formação. O TikTok engaja com vídeos curtos que revelam uma vida de luxo e ostentação de influenciadores adolescentes, acessível a pouquíssimos.
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A busca por validação via curtidas, a sensação de nunca ser o suficiente, a solidão que a hiperconectividade produz: tudo isso contribui para que o adolescente conclua que sua dor não tem lugar e sua existência não tem valor.
O resultado aparece no corpo. Quando a palavra falha, e ela falha cada vez mais numa geração que não sabe narrativizar o próprio sofrimento, o ato toma seu lugar. Os cortes, as autolesões, as tentativas de suicídio são, na maior parte dos casos, um endereçamento desesperado. Um pedido de socorro que o mundo adulto nem sempre sabe escutar.
A escuta, nesse contexto, não é apenas técnica. É sustentar o sofrimento do jovem sem tentar apagá-lo ou oferecer resoluções rápidas. O adolescente em crise, antes de qualquer resposta, precisa que alguém tolere estar com ele e o ajude a colocar em palavras algo que escapa às suas possibilidades discursivas naquele momento.
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Dilatar esse tempo, criar uma pausa real entre a dor e a conclusão precipitada, pode ser o que impede um ato irreversível. Quando um jovem sente que sua dor tem lugar, algo se move em sua defesa.
* Carolina Nassau Ribeiro é psicóloga, doutora em Psicanálise e autora do novo livro Suicídio na Adolescência: Uma Abordagem Psicanalítica (Editora Juruá)
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